Quem é Eduardo Marinho?

Eu estou sempre alguns meses atrasado com as novidades do cenário pop nacional. Por isso só agora conheci um brasileiro discípulo de Diógenes, o cão. Maltrapilho por opção, Diógenes andava pelas cidades gregas da Roma Imperial questionando o modo de vida das pessoas. Dormia em barris, de onde pontificava suas pseudo-filosofias, já então símbolo da decadência da filosofia grega após a morte de Aristóteles. Diz a lenda que quando Alexandre Magno o encontrou durante alguma de suas expedições de conquista, já conhecedor de sua fama de homem desprendido, anunciou estar disposto a atender a qualquer de seus desejos; ao que Diógenes respondeu: “Só quero que se afaste um pouquinho para o lado porque está tampando o meu sol“.

Como um Diógenes adaptado ao nosso tempo, Eduardo Marinho não nos pede licença para ver o seu sol, antes nos convida a apreciar as luzes e as sombras de seu mundo interior confuso, retratado nas caricaturas que vende pelas ruas e nas ideias que vem espalhando por aí há alguns anos (daí que vem sendo chamado o filósofo das ruas). Pelo tom de suas palestras (facilmente acessíveis pelo YouTube), esse homem, que se gaba de ter largado uma vida de facilidades como militar, bancário e estudante de Direito, parece certo de que tem muito a ensinar a todos. Orgulha-se de sua luz própria ao mesmo tempo em que faz pose de aprendiz — dono de um ar professoral (meio messiânico, até) que mal-combina com a sua voz de animal assustado (voz que transmite uma sensação de revolta contra o mundo moderno mesclada com uma resignação própria das almas feridas).

Encontrar sentido na vida“, esse é o seu objetivo. A meta é boa, aliás. Só não sei exatamente se ele tem alguma ideia do que seja isso. Antes de encontrar um sentido positivo, pessoas como ele acreditam que é preciso fazer o trabalho do negativo — porque ninguém é de ferro. Por isso, Eduardo questiona a religião, o dinheiro, os condomínios fechados, a música urbana, a educação formal, a vida ordenada e cotidiana das sociedades capitalistas. Antes de construir o próprio sentido, Eduardo tem muito o que destruir. De tanto destruir, parece que não gosta de ordem e rotina: ao contrário de Adélia Prado, Eduardo Marinho definitivamente não gosta de segundas-feiras.

E qual é o sentido da vida desse andarilho pop? O nome de seu projeto pastoral poderia indicar algo: Observar e Absorver. Porém, há algo que não fecha nessa conta. E eu não sei exatamente o que é. Fato é que na sua primeira maturidade, largou a faculdade de Direito para encontrar o sentido da sua vida em outra qualquer atividade. Parece que rompeu com os pais e anda a fazer bicos, vendendo artesanato com sua Kombi e, já há alguns anos, proferindo palestras motivacionais em faculdades, diretórios acadêmicos, instituições para-religiosas, reuniões de diretoria, treinamentos, oficinas mecânicas, quintais, ateliês e festas de aniversário. Teve três filhos e quatro companheiras. Sua filosofia (melhor seria dizer: suas filosofias) é uma miscelânea confusa e desorganizada de Diógenes de Sinope, Bob Marley, Raul Seixas e Paulo Freire; sua antena capta um monte de ideias e sai por aí tentando justificar sua opção (objetivamente, nem boa nem má) de romper com o mundo e queimar seus navios.

Porém, um misto de ideias tortas não faz um homem.

A filosofia de Eduardo Marinho é um budismo-marxismo diluído em doses de ceticismo existencialista; é própria de um homem que em determinado ponto de sua vida se cansou de obedecer, sem compreender, aos compromissos sociais que na sua visão eram impostos a todos (principalmente por seus pais, imagino); que deixou uma carreira mais ou menos segura na área jurídica (não concluiu a faculdade) e foi tentar melhor sorte no ramo das andanças-sem-rumo. Sem dúvida que se tornou uma pessoa digna de interesse (ao menos para os sociólogos e para os psicólogos), especialmente porque parece, à distância, uma pessoa de coragem e desprendimento acima da média nacional. Mas, vejam: coragem e desprendimento são duas virtudes que nós em geral não cultivamos por aqui. Entre nós, corajoso é o pós-adolescente que encara sozinho (quanta coragem!) uma viagem de mochilão para Machu Picchu; e desprendida é a mulher que faz aborto para não perder o emprego (um desprendimento, dizem, em relação às convenções sociais e ao instinto de maternidade que — reconhecem — “ainda” acomete as mulheres hoje). Portanto, num panorama desolador como o nosso, até mesmo um andarilho palestrante, ex-filho-de rico, um homem sem ideias próprias e cheio de casos de exaltação do próprio ego para contar a plateias mais ou menos interessadas, até mesmo esse homem, eu dizia, passa-se pelo mais virtuoso dos virtuosos e, se bobear, é forte candidato à beatificação em processo aberto pela opinião pública (fato que se consuma quando se é convidado, por exemplo, para participar do programa do Jô Soares).

Em suas palestras ou diante de uma câmera de celular em ruas e avenidas (a Avenida Paulista, em São Paulo, é um dos locais em que costuma expor aos transeuntes seus desenhos e, consequentemente, suas ideias), esse homem quase-sábio fala com tanta certeza a respeito de suas incertezas que tem atraído a atenção de muitos curiosos (pergunto-me se já não é o caso de falar em ‘discípulos’). É um homem crítico pelo prazer e pela necessidade da crítica. Para ele, o ser humano é um espécie insignificante porque 90% das estrelas são maiores que o Sol. Como já disse o prof. Olavo de Carvalho: “todas as pessoas que se orgulham de pensar com a própria cabeça acabam, no final das contas, pensando como todo mundo“. Esse parece ser o caso de Eduardo Marinho, que diz, por exemplo: “não tenho religião, mas sim espiritualidade” — sem ter, contudo, a menor noção da bobagem que diz (ele certamente ouviu isso de algum guru e achou legalzinho repetir, como quem não se prende às amarras das ‘instituições medievais’ que cheiram a mofo).

Não tendo nada para colocar no lugar daquilo que tenta destruir, é evidente que ele (apesar de agir diferente da maioria da população) aderiu às ideias bonitinhas que as pessoas bonitinhas devem ter sobre espiritualidade, antropologia, sistema capitalista, família, caridade, bondade e liberdade. Isso quer dizer que sua crítica sem método e sem direção (como toda crítica ingênua que mereça esse nome) o leva a cometer os mesmos erros e a assumir os mesmos lugares-comuns que qualquer ator global de sua geração é obrigado a sair dizendo por aí como pré-requisito para ser amado e aceito pelo beautiful people. Ele pensa como todo mundo (com a diferença, evidente, de que não age como eles — e isso o torna exótico aos olhos do público e da crítica).

Eduardo Marinho é um homem-massa que se rebelou. É mais um entre tantos. É mais do mesmo. E é exatamente por isso que se arrisca a se transformar em guru de uma multidão de pessoas em busca de uma filosofia de vida alternativa.

Particularmente, acho que Eduardo está certíssimo em questionar as estruturas sociais e os nossos hábitos burgueses; e mais certo ainda em buscar um sentido para a sua vida e para a vida de sua Celestina, a Kombi azul-e-branco com a qual tem percorrido o país em busca de aventuras. Reconheço, também, que ele se esforça, em suas palestras, para evitar um tom de doutrinação muito comum em sofistas e céticos de toda ordem. Mas, como disse G. K. Chesterton, quem não crê em Deus acaba acreditando em qualquer coisa. E esse, parece-me, é um dos poréns das lições de Eduardo Marinho e do valor que lhes dão seus ouvintes cativos. Mas a chave para arrombar essa porta ele próprio no-la dá: quando disse a uma plateia em Uberlândia, MG, que fala a variados públicos como quem está numa mesa de bar conversando com amigos, Eduardo nos dá a medida com que devemos tratar suas “vivências”: a atenção que a ele devemos dar é aquela — nem mais, nem menos — que dávamos, no começo da faculdade, àquele amigo exótico, filósofo-de-almanaque nas horas vagas, que depois do segundo copo de cerveja começava a falar bonito a respeito de seus planos de conhecer Machu Picchu.

Você se lembra dessas conversas? Sim, eu sei que se lembra. Em bares ou nos intervalos das aulas, todo mundo sabia que o amigo estava falando com o coração (desse plano ou de outros semelhantes), mas, apesar de tudo, também sabia (ou deveria saber) que aquilo tudo era uma conversinha como qualquer outra; porque hoje, olhando para trás, você pode dizer: se ele realmente foi a Machu Picchu, ou se não foi, ou muito antes pelo contrário, no fundo, no fundo, pouco importava e pouco importará. O sentido da vida está muito além dessas conversas de bar: porque os bares são pontos de confluência de pessoas desencontradas em busca de se encontrar. Isso não diminui em nada o valor dessas pessoas, mas é disso que se trata e nada mais do que isso: pessoas desencontradas em busca de se encontrar (e tanto maior será seu valor quanto mais consciência tiverem dessa sua exata circunstância).

Eduardo Marinho é um sujeito desencontrado em busca de se encontrar, exatamente como os companheiros de boteco — todos eles sábios e justos à sua maneira principalmente porque ninguém ali jamais imaginou subir num banquinho para dar palestra ao pessoal das mesas ao lado (todos cientes do ridículo que seria dar ênfase ao discurso de um náufrago e colocar todos os outros na condição de espectadores-mudos da miséria que, rigorosamente, é a miséria de todos ali).

Por tudo isso, faço votos de que alguém dê um toque no Eduardo Marinho (“desce desse banquinho, camarada, senta aí e continua tomando sua cerveja como todo mundo, na sua, na boa“); que ele e sua Celestina encontrem logo um caminho bom onde consiga organizar melhor suas ideias — porque hoje, convenhamos, elas estão meio bagunçadas.

Eis um documentário sobre a vida e obra de Eduardo Marinho (Observar e Absorver):

 

Comentários

  1. Neemias Camargo

    Gostei do artigo e do documentário, e me fez pensar se o Eduardo Marinho seja uma espécie de niilista existencial!

  2. Rodrigo

    Sr. Procurador, penso que o melhor de uma republica é a liberdade que cada indivíduo têm de fazer o que quiser dentro dos limites da lei, inclusive militar filosofia barata, seja ela Bob Marley, Raul Seixas ou até mesmo Olavo de Carvalho, não acha?