Orientação para o início dos estudos

Você quer estudar sozinho? É preciso ter cuidado! É um pouco arriscado sair por aí, só, tentando assimilar, sem mais, as lições acumuladas por três milênios de sabedoria. A quem se aventura seguir, por conta própria, uma vida de estudos, geralmente se pode dizer, com muita razão, repetindo o que os soldados romanos disseram a Jesus Cristo crucificado: És capaz? Então salva-te a ti mesmo! O problema é que eu e você não somos a segunda pessoa da Santíssima Trindade. E geralmente também não temos o perfeito conhecimento das dificuldades que enfrentaremos ao trilhar os tortuosos caminhos da uma vida intelectual. E em algumas das ruelas, em alguns dos atalhos, em algumas das moradas iniciais nós podemos nos perder; parar para descansar e nunca mais encontrar ânimo — ou orientação — para seguir adiante.

Por isso é importante encontrar orientação para o trabalho inicial (e também para as bifurcações não-sinalizadas). Isso idealmente deve acontecer através de mestres vivos. Na falta de exemplares viventes, há sempre a possibilidade de encontrá-los através dos frutos de seu trabalho: os livros. A Vida Intelectual, de A.-D. Sertillanges (É Realizações) é um desses livros preciosos que nos pegam pela mão e nos ajudam a caminhar.

Ocorre que a distância entre o tempo, os costumes, o estilo, a vida e as  finalidades do mestre-autor e nós mesmos pode criar um abismo difícil de atravessar. Daí a necessidade de pontes.

Pensando um pouco nisso, dispus-me a começar, através deste post, a leitura comentada dessa magnífica obra. A série terá vinte episódios. Tentarei gravar dois episódios por semana.

A livro, publicado em 1920, é uma excelente introdução à vida de estudos — à verdadeira vida de estudos, que pretende estimular as virtudes, afiar a inteligência e, por tudo isso, promover a melhor vida de que falava Aristóteles. No início, a obra pretendia ser um comentário aos Dezesseis Preceitos Para Adquirir o Tesouro da Ciência, uma carta endereçada a um Frei João e atribuída a São Tomás de Aquino. O autor trata da primeira parte dos estudos, que é a aquisição do conhecimento; porém, reconhece que a aquisição e a difusão dos conhecimentos obedecem a princípios semelhantes.

O prefácio à segunda edição, de 1934, traz um ensinamento muito importante: o intelectual não é filho de si mesmo. Deve, portanto, criar em torno de si um ambiente que o capacite a receber a luz do Espírito — além de criar esse ambiente também é preciso começar a desapegar-se de si próprio e de suas opiniões de estimação.

Mas quem é esse tal de Espírito? É o que chamamos de Inteligência Divina, quem na realidade conduz a vida de estudos. O Espírito atua no começo, no meio e no fim da vida intelectual. A vida de estudos é uma vocação, um chamado. É preciso estar atento, longe dos ruídos do mundo, para ouvir essa voz. Quando você encontra essa vocação vivencia uma espécie de êxtase e, assim, cria em si um vaso capaz de guardar o objeto de sua busca. O Espírito também atua nos meios: é preciso saber o momento de se dedicar aos estudos e o momento de deixá-los a fim de conviver com as pessoas e de cuidar dos demais afazeres que nos chamam.

Por fim, é preciso saber o que você fará com os frutos de seus estudos. É preciso ter ouvidos para entender. Não se deve fazer nem mais nem menos do que você é capaz. Erra aquele que se subestima, mas também erra aquele que se imagina capaz de operar milagres em escala mundial quando sua tarefa for, simplesmente, a educação de sua própria família — o que hoje em dia, convenhamos, já demanda um esforço considerável.

Para se dedicar a uma vida de estudos não é necessário, já no início, ter grandes virtudes, uma inteligência aguda ou uma coragem acima do normal. É preciso, sim, ser obediente. Obediente a quem? É preciso ser obediente a quem manda em tudo: ao Espírito, a Deus. Fazendo isso você se afasta, com proveito, das opiniões correntes — que muitas vezes esmagam as vocações incipientes através de chantagens emocionais implícitas. É preciso conviver em sociedade, mas consciente de que somos únicos em nossa individualidade (a redundância é proposital).

Em 1944, quando a Europa se via em meio à Segunda Guerra Mundial, o livro teve uma terceira edição. Nela o autor disse que o trabalho de reconstrução da Europa não era missão para a força bruta, mas para os intelectuais de quaisquer orientações, que são eram então convocados para iniciar esse trabalho a partir de uma tradição que a guerra não foi capaz de destruir.

Lá como cá, se você olha ao redor e sente que vivemos em um país em ruínas, saiba: sua percepção provavelmente é sinal de que você está sendo chamado para ajudar a reconstruí-lo pouco a pouco, com a sua pequena mas inestimável contribuição.

(Este texto é o primeiro comentário — de um total de vinte e cinco — ao livro “A Vida Intelectual”, de A.-D. Sertillanges.)

Assista ao vídeo: